O desafio brasileiro na era da IA não é ensinar as pessoas a conversar com máquinas
O desafio é garantir que elas tenham condições de perceber quando a máquina está errada.
Há uma discussão sobre IA que, na minha opinião, está sendo tratada de forma excessivamente otimista no Brasil: a capacidade das pessoas de usar IA de maneira crítica, e não apenas de conversar com ela.
Qualquer pessoa poderá usar IA para aprender, escrever, analisar documentos, programar e tomar decisões. A barreira técnica caiu dramaticamente.
Por Cezar Taurion, no LinkedIn
Mas será que a barreira cognitiva também caiu? Para extrair valor de uma IA não basta saber escrever um prompt. É preciso conseguir formular um objetivo, fornecer contexto, distinguir informação relevante de irrelevante, avaliar uma resposta, perceber contradições e reconhecer quando algo aparentemente convincente está errado.
O problema é estrutural
Segundo o IBGE, em 2024, 44,3% das pessoas de 25 anos ou mais não haviam concluído a educação básica obrigatória. Isso não significa que sejam incapazes de aprender ou utilizar tecnologia, mas revela a dimensão do déficit educacional acumulado no país.
O PISA 2022 traz outro dado preocupante: metade dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingiu o nível mínimo de proficiência em leitura, contra 26% na média da OCDE. Nesse nível mínimo, o estudante já deveria conseguir identificar a ideia principal de um texto de alguma complexidade e localizar informações seguindo critérios explícitos. Apenas 2% dos brasileiros chegaram aos níveis mais altos de leitura.
Isso muda a natureza do debate sobre IA. A questão não é ensinar todo mundo a fazer “prompts sofisticados”. As próprias interfaces estão tornando isso menos necessário.
O problema está na capacidade de discernimento para identificar as respostas erradas
O problema mais profundo é outro: como avaliar criticamente aquilo que a IA produz? Uma pessoa pode gerar um texto sofisticado sem compreender seu conteúdo. Pode produzir uma análise convincente sem perceber uma premissa errada. Pode receber uma resposta plausível e não ter repertório suficiente para questioná-la.
A IA amplia a distância entre quem tem capacidade analítica de quem não tem
A IA pode, portanto, democratizar o acesso ao conhecimento. Mas também pode democratizar a produção de respostas erradas com aparência de conhecimento.
Quem já possui boa capacidade de leitura, repertório e pensamento crítico pode usar a IA como amplificador. Quem tem dificuldade para avaliar informação pode utilizá-la como uma espécie de terceirização do próprio julgamento. Nesse caso, a IA não necessariamente reduz a desigualdade cognitiva. Pode ampliá-la.
Portanto, precisamos falar novamente e com muito mais seriedade, de leitura, interpretação, matemática, argumentação, pensamento crítico e capacidade de aprender.
A IA pode ser uma extraordinária ferramenta de ampliação cognitiva. Mas, quanto mais poderosa fica a ferramenta, mais importante se torna a capacidade de julgar o que ela produz.
O desafio brasileiro na era da IA não é ensinar as pessoas a conversar com máquinas. É garantir que elas tenham condições de perceber quando a máquina está errada.
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